Em minha recente imersão pela China, passando por 5 cidades com perfis muito distintos, uma percepção se tornou inevitável: não existe apenas uma China. Existem, ao menos, duas Chinas convivendo simultaneamente.
A primeira é a China raiz: histórica, culturalmente densa, marcada por hábitos, contrastes urbanos e tradições que revelam a força de uma civilização milenar.
A segunda é uma China que poderíamos chamar, de forma provocativa, de “a China que vem por aí”: tecnológica, conectada, veloz, pragmática e profundamente orientada à inovação. É nesta China que os laboratórios de futuros parecem estar em plena operação. Shenzhen talvez seja uma das expressões mais evidentes dessa lógica. A cidade não se apresenta apenas como polo tecnológico, mas como uma plataforma de inovação urbana, empresarial e institucional.
O ponto que mais me chamou atenção, no entanto, não é a tecnologia visível que vemos viralizando nas redes sociais.
Robôs, automação e inteligência artificial impressionam. Mas eles não explicam sozinhos a transformação em curso. A questão central, para mim, está na capacidade sistêmica de execução de estruturas que sustentam o desenvolvimento.
Infraestrutura, nesse contexto, é tratada como uma arquitetura estratégica de competitividade. É o que permite ganhar agilidade, elevar produtividade, reduzir custos, integrar parceiros de negócios, conectar atores econômicos e diminuir fricções operacionais.
Em outras palavras, infraestrutura é encarada como condição mínima, essencial, de entrada no jogo competitivo. Essa base é o permite que a tecnologia entregue seu potencial.
Esse talvez seja um dos maiores aprendizados da viagem: o amanhã da China não vem sendo construído por soluções sofisticadas. Ele é fruto da capacidade de organizar um ecossistema no qual cada ator compreende seu papel, contribui com aquilo que sabe fazer melhor e opera em lógica de complementaridade.
Há, portanto, uma diferença importante entre adotar tecnologia e construir competitividade. Adotar tecnologia pode ser uma decisão pontual. Construir competitividade exige visão sistêmica, coordenação, disciplina de execução e visão de longo prazo.
Em muitas das reuniões de negócio que tive, a pergunta era “o que podemos construir agora que poderá se tornar uma vantagem estrutural no futuro?”.
No campo do foresight, sabemos que futuros não são destinos fixos. São construções possíveis, moldadas por decisões, investimentos e comportamentos. O que observei na China foi justamente a materialização dessa ideia: futuros emergindo de escolhas concretas baseadas em um modelo mental de crescimento que integra os diversos participantes do ecossistema de negócios.
E a sua empresa está investindo apenas em soluções para o presente ou está construindo a arquitetura necessária para competir nos futuros que ainda estão se formando?
Lembre, o futuro só começa amanhã no calendário!